quarta-feira, 5 de junho de 2013

Educomunicação na Comunidade Quilombola de Alagadiço: Ensinando a Aprender


Com dona Vinô durante palestra

Por Amanda Lima

Era manhã de domingo e uma ansiedade indescritível me tomava. Afinal, era a primeira vez que poderia exercitar todo conhecimento em Educação e Comunicação adquirido em quatro anos na universidade fora dos seus muros.

A comunidade escolhida para a intervenção foi a Quilombola Alagadiço. Chegando lá pude perceber que a agonia não era privilégio meu. A atividade do grupo de estudantes era aguardada. Prova disto foi a movimentação tímida, mas curiosa nos arredores da escola desativada, já limpa a nossa espera.

Aos poucos, homens e mulheres de todas as idades atenderam nosso convite e encheram a sala de aulas para discutir temas como direito à terra, reconhecimento e certificação de comunidades quilombolas e fotografia. O último, mesmo parecendo de leitura mais simples, foi o assunto que mais intimidou os moradores.

A justificativa veio logo após a pergunta da professora Márcia Guena, que coordenou a parte teórica da atividade através de palestras. Das pouco mais de vinte pessoas presentes, apenas uma já havia tirado fotos em uma câmera digital. O desafio neste momento mostrou grandes proporções diminuídas logo na seqüência quando a comunidade apresentou o que gostaria de fotografar.

Moradia, Acesso à água, estradas, animais, famílias, seca, plantações, entre outros temas demonstravam que a comunidade conseguiu enxergar na atividade uma forma de mapear seu espaço e aspectos culturais para catalogação e possível reconhecimento como comunidade quilombola.

Assim, com câmeras na mão, vontade de auto-descoberta, curiosidade e politização todos aqueles que jamais haviam fotografado, conseguiram muito mais que registrar momentos. O compromisso ali foi de reconhecer e denunciar, para garantir mais direitos a todos os moradores.

Dona Vinô mesmo sem ter sua visão física fez questão de fotografar. E que belas imagens aquela sensibilidade pode captar. A vegetação local quase despercebida no cotidiano ganhou destaque e beleza nas fotografias daquela desconfiada e simpática senhora. Por outro lado, as crianças também queriam mostrar o que encontravam de mais belo em sua comunidade. Os animais, suas casas e famílias ganharam a alegria infantil em cada registro.

Era a primeira vez que podia entender como a Educomunicação é capaz de ensinar o que infelizmente ainda não se aprende na escola. E mais do que isso, como aprendemos a utilizá-la na prática, no convívio da auto-descoberta refletida no outro.

Foi no sorriso de cada uma das crianças que teve orgulho de fotografar sua família, sua casa, de mostrar sua história ou na perspicácia e esperteza de Dona Vinô que entendemos que às vezes subestimamos nossa capacidade de aprender e ensinar ao mesmo tempo, como a Educomunicação propõe.

Assim, a ansiedade recíproca apresenta agora uma nova face. De um lado a comunidade espera uma nova visita, já declarada na despedida, para quem sabe desenvolver outras atividades. Do outro, nós estudantes reascendemos na reta final do curso, com caráter mercadológico, o desejo de voltar a esta e tantas outras comunidades para descobrir diferentes formas de auxiliar uma população a nos ensinar. Estes são os sentimentos que tomam o coração. Vontade, coragem, ousadia e humildade para mais descobertas.

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