Com dona Vinô durante palestra
Por Amanda Lima
Era manhã de domingo e uma ansiedade indescritível
me tomava. Afinal, era a primeira vez que poderia exercitar todo conhecimento em
Educação e Comunicação adquirido em quatro anos na universidade fora dos seus
muros.
A comunidade escolhida para a intervenção foi a
Quilombola Alagadiço. Chegando lá pude perceber que a agonia não era privilégio
meu. A atividade do grupo de estudantes era aguardada. Prova disto foi a movimentação
tímida, mas curiosa nos arredores da escola desativada, já limpa a nossa
espera.
Aos poucos, homens e mulheres de todas as idades
atenderam nosso convite e encheram a sala de aulas para discutir temas como
direito à terra, reconhecimento e certificação de comunidades quilombolas e
fotografia. O último, mesmo parecendo de leitura mais simples, foi o assunto
que mais intimidou os moradores.
A justificativa veio logo após a pergunta da
professora Márcia Guena, que coordenou a parte teórica da atividade através de
palestras. Das pouco mais de vinte pessoas presentes, apenas uma já havia
tirado fotos em uma câmera digital. O desafio neste momento mostrou grandes proporções
diminuídas logo na seqüência quando a comunidade apresentou o que gostaria de
fotografar.
Moradia, Acesso à água, estradas, animais,
famílias, seca, plantações, entre outros temas demonstravam que a comunidade conseguiu
enxergar na atividade uma forma de mapear seu espaço e aspectos culturais para
catalogação e possível reconhecimento como comunidade quilombola.
Assim, com câmeras na mão, vontade de
auto-descoberta, curiosidade e politização todos aqueles que jamais haviam
fotografado, conseguiram muito mais que registrar momentos. O compromisso ali
foi de reconhecer e denunciar, para garantir mais direitos a todos os moradores.
Dona Vinô mesmo sem ter sua visão física fez
questão de fotografar. E que belas imagens aquela sensibilidade pode captar. A
vegetação local quase despercebida no cotidiano ganhou destaque e beleza nas
fotografias daquela desconfiada e simpática senhora. Por outro lado, as
crianças também queriam mostrar o que encontravam de mais belo em sua
comunidade. Os animais, suas casas e famílias ganharam a alegria infantil em
cada registro.
Era a primeira vez que podia entender como a
Educomunicação é capaz de ensinar o que infelizmente ainda não se aprende na
escola. E mais do que isso, como aprendemos a utilizá-la na prática, no
convívio da auto-descoberta refletida no outro.
Foi no sorriso de cada uma das crianças que teve
orgulho de fotografar sua família, sua casa, de mostrar sua história ou na
perspicácia e esperteza de Dona Vinô que entendemos que às vezes subestimamos nossa
capacidade de aprender e ensinar ao mesmo tempo, como a Educomunicação propõe.
Assim, a ansiedade recíproca apresenta agora uma
nova face. De um lado a comunidade espera uma nova visita, já declarada na
despedida, para quem sabe desenvolver outras atividades. Do outro, nós
estudantes reascendemos na reta final do curso, com caráter mercadológico, o
desejo de voltar a esta e tantas outras comunidades para descobrir diferentes
formas de auxiliar uma população a nos ensinar. Estes são os sentimentos que
tomam o coração. Vontade, coragem, ousadia e humildade para mais descobertas.
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